Regina Novaes fala sobre as aflições na juventude de hoje
Por: Leandro Martinelli
Sandro Barbosa do Nascimento, 21 anos, Diego Nascimento da Silva, 18. Sandro, seqüestrador do ônibus 174; Diego, assassino de João Hélio. Nestas duas pessoas há mais coisa em comum do que seus sobrenomes e de terem sido autores de crimes que abalaram a sociedade: ambos são jovens. Em episódios como estes o país levanta debates sobre formas de conter a violência, seja por meio da força policial ou por medidas sociais, mas ainda desviam seus olhares das angústias desta geração. E é sobre os dramas e os medos da juventude de hoje que a antropóloga Regina Novaes, secretária da Secretaria Nacional da Juventude, deu uma palestra na Fundação Darcy Ribeiro, mostrando ser indispensável compreender esta parcela importante sociedade para chegarmos a uma solução eficaz contra o crime.
De acordo com Regina, não é só a população dita “de bem” que tem seus pavores, como a violência, por exemplo, esta muitas vezes personificada pelo jovem pobre da favela. Os medos também flagelam a geração jovem do nosso tempo, que ela identifica como sendo dois: o medo de sobrar e o medo de morrer. Toda experiência geracional é nova, porém esses aspectos são responsáveis por uma totalmente inédita.
A partir da década de 90 o jovem passou a ser ator social. Antes ele participava da vida política, mas integrando entidades estudantis, religiosas ou partidárias. “Agora ele é objeto específico de luta, pois passou a lutar pela sua inclusão social”. A idéia clássica de ser jovem na sociedade moderna é estar na “moratória social”, ou seja, estar em suspensão, estar entre a infância e a maturidade. É uma fase de preparação para entrar no mercado de trabalho. Ao sair desta etapa ele consegue um emprego, constrói uma nova família e vai exercer sua cidadania.
No entanto, esta “moratória social” sempre foi uma inspiração, um sonho, nunca foi uma realidade. “Quem pode viver esta moratória? Somente uma minoria, pois para a maioria a infância é curta e a maturidade é imposta”. Sem este momento, a preparação para o mercado de trabalho é deficiente ou não existe. Há vinte anos, aproximadamente, o filho do operário podia projetar o seu futuro, se algo desse errado ele seguiria, ao menos, a profissão do pai e poderia ser até um profissional mais qualificado. Valia o mesmo para as populações do campo. Apesar da grande concentração de terra era possível que os filhos de trabalhadores rurais reproduzissem a condição ou conseguissem alguma ascensão social. A partir dos anos 90 isso muda, foi ficando cada vez mais impossível planejar o futuro, nem mesmo ter a garantia de poder trilhar os passos dos seus pais.
A automatização, a terceirização, o mercado de trabalho restritivo e mutante de pós-industrialização e de grande globalização são os responsáveis por esta instabilidade. Como pensar nos postos de trabalho na próxima década, que tipo de indústria teremos? A maneira de estar no mundo mudou. E o medo de sobrar é enorme, principalmente entre os mais vulneráveis, ou seja, aqueles que possuem o estereótipo de marginal.
Um outro medo é o de morrer. A juventude é um período de sentir adrenalina, de correr riscos, de agitação, talvez pelo fato de ser uma fase da vida em que a idéia de morte fica projetada para longe. O ciclo natural é que os mais velhos morram primeiro. Estatísticas no Brasil, porém, comprovam que é impressionante o número de jovens que já presenciaram a morte de amigos, primos e irmãos. Em termos de cotidiano isto é novo. Ele tem vivenciado mais de perto a morte de seus pares. Entre os suicídios e acidentes de carro com mortes, à arma de fogo e mortes violentas eles aparecem em primeiro lugar.
A relação entre o jovem pobre do morro e o narcotráfico internacional também deve ser repensada. “O narcotráfico é internacional, é importante dizer este detalhe para não acharem que o tráfico no Brasil é as favelas e na América Latina é a Colômbia. Ele é uma rede e que cada nó só faz sentido se pensar na rede inteira. É comum acharem estar separando o joio do trigo. Criminalizam uma área em relação à outra, vão tentando circunscrever o mal, enquanto que na verdade tudo isso é uma rede e que no máximo o local é um nó”, diz a antropóloga.
Para Regina Novaes é preciso criar um novo casamento – ou quem sabe, um divórcio – entre educação escolar e as formas de inserção produtiva do século XXI. “O que tem que se aprender junto é um conhecimento que permita raciocínio, reflexão e flexibilidade. Nosso grande desafio é construir uma perspectiva geracional”, diz. Para que isto ocorra é necessária uma participação global da sociedade.
Sandro Barbosa do Nascimento, 21 anos, Diego Nascimento da Silva, 18. Sandro, seqüestrador do ônibus 174; Diego, assassino de João Hélio. Nestas duas pessoas há mais coisa em comum do que seus sobrenomes e de terem sido autores de crimes que abalaram a sociedade: ambos são jovens. Em episódios como estes o país levanta debates sobre formas de conter a violência, seja por meio da força policial ou por medidas sociais, mas ainda desviam seus olhares das angústias desta geração. E é sobre os dramas e os medos da juventude de hoje que a antropóloga Regina Novaes, secretária da Secretaria Nacional da Juventude, deu uma palestra na Fundação Darcy Ribeiro, mostrando ser indispensável compreender esta parcela importante sociedade para chegarmos a uma solução eficaz contra o crime.
De acordo com Regina, não é só a população dita “de bem” que tem seus pavores, como a violência, por exemplo, esta muitas vezes personificada pelo jovem pobre da favela. Os medos também flagelam a geração jovem do nosso tempo, que ela identifica como sendo dois: o medo de sobrar e o medo de morrer. Toda experiência geracional é nova, porém esses aspectos são responsáveis por uma totalmente inédita.
A partir da década de 90 o jovem passou a ser ator social. Antes ele participava da vida política, mas integrando entidades estudantis, religiosas ou partidárias. “Agora ele é objeto específico de luta, pois passou a lutar pela sua inclusão social”. A idéia clássica de ser jovem na sociedade moderna é estar na “moratória social”, ou seja, estar em suspensão, estar entre a infância e a maturidade. É uma fase de preparação para entrar no mercado de trabalho. Ao sair desta etapa ele consegue um emprego, constrói uma nova família e vai exercer sua cidadania.
No entanto, esta “moratória social” sempre foi uma inspiração, um sonho, nunca foi uma realidade. “Quem pode viver esta moratória? Somente uma minoria, pois para a maioria a infância é curta e a maturidade é imposta”. Sem este momento, a preparação para o mercado de trabalho é deficiente ou não existe. Há vinte anos, aproximadamente, o filho do operário podia projetar o seu futuro, se algo desse errado ele seguiria, ao menos, a profissão do pai e poderia ser até um profissional mais qualificado. Valia o mesmo para as populações do campo. Apesar da grande concentração de terra era possível que os filhos de trabalhadores rurais reproduzissem a condição ou conseguissem alguma ascensão social. A partir dos anos 90 isso muda, foi ficando cada vez mais impossível planejar o futuro, nem mesmo ter a garantia de poder trilhar os passos dos seus pais.
A automatização, a terceirização, o mercado de trabalho restritivo e mutante de pós-industrialização e de grande globalização são os responsáveis por esta instabilidade. Como pensar nos postos de trabalho na próxima década, que tipo de indústria teremos? A maneira de estar no mundo mudou. E o medo de sobrar é enorme, principalmente entre os mais vulneráveis, ou seja, aqueles que possuem o estereótipo de marginal.
Um outro medo é o de morrer. A juventude é um período de sentir adrenalina, de correr riscos, de agitação, talvez pelo fato de ser uma fase da vida em que a idéia de morte fica projetada para longe. O ciclo natural é que os mais velhos morram primeiro. Estatísticas no Brasil, porém, comprovam que é impressionante o número de jovens que já presenciaram a morte de amigos, primos e irmãos. Em termos de cotidiano isto é novo. Ele tem vivenciado mais de perto a morte de seus pares. Entre os suicídios e acidentes de carro com mortes, à arma de fogo e mortes violentas eles aparecem em primeiro lugar.
A relação entre o jovem pobre do morro e o narcotráfico internacional também deve ser repensada. “O narcotráfico é internacional, é importante dizer este detalhe para não acharem que o tráfico no Brasil é as favelas e na América Latina é a Colômbia. Ele é uma rede e que cada nó só faz sentido se pensar na rede inteira. É comum acharem estar separando o joio do trigo. Criminalizam uma área em relação à outra, vão tentando circunscrever o mal, enquanto que na verdade tudo isso é uma rede e que no máximo o local é um nó”, diz a antropóloga.
Para Regina Novaes é preciso criar um novo casamento – ou quem sabe, um divórcio – entre educação escolar e as formas de inserção produtiva do século XXI. “O que tem que se aprender junto é um conhecimento que permita raciocínio, reflexão e flexibilidade. Nosso grande desafio é construir uma perspectiva geracional”, diz. Para que isto ocorra é necessária uma participação global da sociedade.

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