quarta-feira, 11 de julho de 2007

O medo também está do outro lado

Regina Novaes fala sobre as aflições na juventude de hoje
Por: Leandro Martinelli
Sandro Barbosa do Nascimento, 21 anos, Diego Nascimento da Silva, 18. Sandro, seqüestrador do ônibus 174; Diego, assassino de João Hélio. Nestas duas pessoas há mais coisa em comum do que seus sobrenomes e de terem sido autores de crimes que abalaram a sociedade: ambos são jovens. Em episódios como estes o país levanta debates sobre formas de conter a violência, seja por meio da força policial ou por medidas sociais, mas ainda desviam seus olhares das angústias desta geração. E é sobre os dramas e os medos da juventude de hoje que a antropóloga Regina Novaes, secretária da Secretaria Nacional da Juventude, deu uma palestra na Fundação Darcy Ribeiro, mostrando ser indispensável compreender esta parcela importante sociedade para chegarmos a uma solução eficaz contra o crime.
De acordo com Regina, não é só a população dita “de bem” que tem seus pavores, como a violência, por exemplo, esta muitas vezes personificada pelo jovem pobre da favela. Os medos também flagelam a geração jovem do nosso tempo, que ela identifica como sendo dois: o medo de sobrar e o medo de morrer. Toda experiência geracional é nova, porém esses aspectos são responsáveis por uma totalmente inédita.
A partir da década de 90 o jovem passou a ser ator social. Antes ele participava da vida política, mas integrando entidades estudantis, religiosas ou partidárias. “Agora ele é objeto específico de luta, pois passou a lutar pela sua inclusão social”. A idéia clássica de ser jovem na sociedade moderna é estar na “moratória social”, ou seja, estar em suspensão, estar entre a infância e a maturidade. É uma fase de preparação para entrar no mercado de trabalho. Ao sair desta etapa ele consegue um emprego, constrói uma nova família e vai exercer sua cidadania.
No entanto, esta “moratória social” sempre foi uma inspiração, um sonho, nunca foi uma realidade. “Quem pode viver esta moratória? Somente uma minoria, pois para a maioria a infância é curta e a maturidade é imposta”. Sem este momento, a preparação para o mercado de trabalho é deficiente ou não existe. Há vinte anos, aproximadamente, o filho do operário podia projetar o seu futuro, se algo desse errado ele seguiria, ao menos, a profissão do pai e poderia ser até um profissional mais qualificado. Valia o mesmo para as populações do campo. Apesar da grande concentração de terra era possível que os filhos de trabalhadores rurais reproduzissem a condição ou conseguissem alguma ascensão social. A partir dos anos 90 isso muda, foi ficando cada vez mais impossível planejar o futuro, nem mesmo ter a garantia de poder trilhar os passos dos seus pais.
A automatização, a terceirização, o mercado de trabalho restritivo e mutante de pós-industrialização e de grande globalização são os responsáveis por esta instabilidade. Como pensar nos postos de trabalho na próxima década, que tipo de indústria teremos? A maneira de estar no mundo mudou. E o medo de sobrar é enorme, principalmente entre os mais vulneráveis, ou seja, aqueles que possuem o estereótipo de marginal.
Um outro medo é o de morrer. A juventude é um período de sentir adrenalina, de correr riscos, de agitação, talvez pelo fato de ser uma fase da vida em que a idéia de morte fica projetada para longe. O ciclo natural é que os mais velhos morram primeiro. Estatísticas no Brasil, porém, comprovam que é impressionante o número de jovens que já presenciaram a morte de amigos, primos e irmãos. Em termos de cotidiano isto é novo. Ele tem vivenciado mais de perto a morte de seus pares. Entre os suicídios e acidentes de carro com mortes, à arma de fogo e mortes violentas eles aparecem em primeiro lugar.
A relação entre o jovem pobre do morro e o narcotráfico internacional também deve ser repensada. “O narcotráfico é internacional, é importante dizer este detalhe para não acharem que o tráfico no Brasil é as favelas e na América Latina é a Colômbia. Ele é uma rede e que cada nó só faz sentido se pensar na rede inteira. É comum acharem estar separando o joio do trigo. Criminalizam uma área em relação à outra, vão tentando circunscrever o mal, enquanto que na verdade tudo isso é uma rede e que no máximo o local é um nó”, diz a antropóloga.
Para Regina Novaes é preciso criar um novo casamento – ou quem sabe, um divórcio – entre educação escolar e as formas de inserção produtiva do século XXI. “O que tem que se aprender junto é um conhecimento que permita raciocínio, reflexão e flexibilidade. Nosso grande desafio é construir uma perspectiva geracional”, diz. Para que isto ocorra é necessária uma participação global da sociedade.

"Atira que é polícia!!!" PM do Rio se transforma em presa valiosa de criminosos

Por Renata Onaindia - 8º período
Um fato recente atingiu em cheio a Polícia Militar do Rio. O assassinato de 12 membros da corporação em apenas oito dias fez dispararem as estatísticas sobre mortes de policiais e provocou uma dúvida na população: Será que os bandidos estão caçando a polícia do Rio?
Em menos de três meses foram 33 mortes. A maioria delas na Zona Norte da cidade. Só o batalhão de Rocha Miranda (9º BPM) perdeu quatro integrantes na última semana.
O fato é que a farda e o distintivo têm sido a sentença de morte de grande parte dos PMs mortos nos últimos dias. Foi o caso do terceiro-sargento Hélio Ricardo Porto Valentino, de 45 anos, assassinado durante uma tentativa de roubo de carro na Pavuna. Depois que os ladrões viram o uniforme do militar no banco do trás do veículo que dirigia, um deles disse "Atira que é polícia!".
Convertida em norma pelos criminosos, a frase provocou estratégias de defesa por parte da corporação sobretudo, quando o policial estiver de folga. Já foram sete mortos desta maneira desde o início do ano, em circunstâncias semelhantes à do sargento Hélio.
A morte da décima-segunda vítima fez acender o alarme entre a cúpula da Polícia Militar. Na manhã da última sexta-feira, uma reunião a portas fechadas no Centro de Formação e Aperfeiçoamento de Praças (Cefap), em Realengo, com comandantes de todos os batalhões da área metropolitana passou o dia discutindo o problema.
As estratégias para escapar da alça de mira dos criminosos já foram traçadas, embora o comando da PM negue que haja uma ação orientada pelos traficantes para promover os ataques à polícia.
- Nosso serviço de inteligência não detectou uma alusão a ataques contra PMs - disse o comandante geral da corporação Ubiratan Angelo, logo após a reunião, referindo-se à denúncia de que criminosos da facção criminosa Comando Vermelho estariam arquitetando a morte de 150 policiais militares nos próximos dias em diferentes cantos da cidade.
Entre as metas para combater a vulnerabilidade dos policiais estão: definição de horários mais precisos para a realização das operações policiais; maior controle e redimensionamento de supervisão das patrulhas e dos equipamentos; reforço na orientação da tropa e atenção especial aos policiais de folga.
Nas próximas semanas, um grupo de estudos formado por oficiais irá avaliar as situações em que cada um dos PMs mortos em folga foram assassinados.
O comandante lembrou que em 2005, um seminário realizado pelo coronel Hudson Aguiar ajudou a reduzir pela metade o número de policiais mortos em serviço. O seminário, entretanto não abordou a questão dos PMs fora de serviço.
- Ainda não há como controlar as atividades do policial quando está fora do horário de trabalho - disse Ubiratan.
Os homicídios também motivaram a instauração de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Assembléia Legislativa do Rio, que pretende investigar as causas das mortes e ajudar as famílias dos policiais falecidos.
A comissão irá ouvir autoridades ligadas à segurança pública no estado e vai investigar as condições de trabalho dos policiais, além da assistência prestada à família das vítimas em combate.
Presidente da Comissão de Segurança Pública da Câmara e um dos integrantes da CPI, o deputado estadual Wagner Montes (PDT-RJ) acredita que os ataques a policiais são uma forma dos bandidos tentarem desmoralizar o poder público e as autoridades.
- A polícia está sufocando o tráfico e obrigando a bandidagem a descer para o asfalto. Os ataques a PMs são uma resposta, um afronta não apenas à polícia, mas ao estado, para tentar desmoralizar a instituição que os têm combatido - disse o parlamentar.
Wagner informou que a comissão investigará ainda porque o estado vem atrasando o pagamento do pecúlio e do seguro de vida às famílias dos policiais mortos. De acordo com o deputado, muitas famílias têm tido de recorrer à ajuda de colegas de farda do parente falecido para continuar vivendo.
Para o parlamentar é preciso que haja união de todas as esferas da polícia para que os assassinos de policiais sejam os verdadeiramente caçados.
- O bandido tem que saber que se cometer um crime contra um policial toda a polícia, militar, civil, federal vai ir atrás dele - diz Wagner.
O presidente do Clube dos Cabos e Soldados da PM, Jorge Lobão, já estava atento para o problema das mortes de policiais antes que elas tomassem as páginas dos jornais com tanta freqüência. Há um ano, Lobão promoveu uma campanha doando R$ 1 mil para quem oferecesse informações que levassem a prisão de assassinos de PMs. Este ano, preocupado com o aumento do número de mortes, o órgão dobrou o valor da recompensa e colocou cartazes em 40 ônibus que trafegam pela região metropolitana do Rio.
- É preciso que se faça algo para impedir que as investigações desses casos fiquem esquecidas, emperradas pela morosidade das autoridades. Através da recompensa, as pessoas se envolvem e ajudam - explica Lobão.
De acordo com informações do CCSPM, em 2005 três casos foram solucionados por meio de informações conseguidas durante a campanha.
Depois da colocação dos cartazes nos ônibus, o número de ligações para o telefone de Lobão aumentou. O presidente recebeu 28 chamadas entre as quais seis apresentaram denúncias com informações consideradas consistentes para contribuir com as investigações sobre alguns dos inquéritos. Sete delas estavam relacionadas a outros crimes e foram encaminhadas para o disque denúncia e três testemunhas se ofereceram para colaborarem com pistas.

CABINES POLICIAIS, UM ALVO FÁCIL
Construídas supostamente para aumentar a segurança do cidadão em pontos estratégicos da cidade, as cabines policiais acabaram ironicamente servindo de alvo fácil para os ataques dos marginais à polícia.
- Sempre defendi que os policiais não devem ser obrigados a ficar dentro das cabines, pois elas não garantem a segurança dos PMs, além de serem desconfortáveis. Submeter os policiais a um calor de 40º em um cubículo fechado e sem blindagem é condená-los ao suicídio. Uma cabine com ar condicionado e à prova de balas é o mínimo que se pode oferecer para que possam ter condições de reagir - conclui o deputado Wagner Montes.

ESTATÍSTICAS
A maior incidência de mortes ocorre nos dias de folga.
Ano passado, o número de policiais assassinados foi de 144.
Em 2005, o número foi de 157, apenas 20 foram mortos em serviço. A maioria das mortes foi durante a folga e por ter sido reconhecidos como PMs
Os bairros onde acontecem a maior parte de crimes contra PMs são Zona Norte e Zona Oeste. As maiores baixas estão no 9º BPM (Rocha Miranda), 14º (Bangu), 18º (Jacarepaguá) e 22º (Maré).

Violência contra idosos: nem sempre vista


Por Ellen Lima - 8º período
A sociedade brasileira vive um processo acelerado de envelhecimento e parece ter ficado claro para a comunidade em geral e para as autoridades as causas e as conseqüências desse processo.
Esse envelhecimento diz respeito diretamente à própria afirmação dos direitos humanos fundamentais. Lembre-se que a velhice significa o próprio direito que cada ser humano tem de viver muito, mas, certamente, viver com dignidade.
Se viver muito com dignidade é um direito de todo ser humano, já que significa a própria garantia do direito à vida, o Estado precisa desenvolver e disponibilizar às pessoas mais velhas toda uma rede de serviços capaz de assegurar os seus direitos básicos, como, por exemplo, saúde, transporte, lazer, ausência de violência tanto no espaço familiar como no espaço público.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) teme que o aumento do número de idosos no mundo agrave as situações de violência relacionadas principalmente com a ruptura de laços tradicionais entre gerações e com o enfraquecimento dos sistemas de proteção social.Segundo a OMS, apenas 30% dos idosos do mundo inteiro estão atualmente a receber pensões de reforma ou subsídios de velhice e invalidez, o que torna muito precárias as suas condições de existência e os expõe a riscos acrescidos de violência; uma violência que tanto pode ser exercida em ambiente familiar como institucional ou social.
A violência na família pode ter diversas causas e assumir um caráter mais ou menos explícito. Nas instituições a violência torna-se, muitas vezes, mais aparente devido ao maior distanciamento afetivo, à impessoalidade dos cuidados e a um regime disciplinar demasiado apertado e rígido.De uma forma geral a sociedade tolera - e, por isso, torna-se cúmplice - do abandono, da falta de respeito e da degradação da condição social dos idosos, contribuindo assim para a difusão de uma cultura de violência contra aqueles que não se integram nos novos padrões sociais de beleza, dinheiro e consumo.
A marginalização dos idosos e a violência simbólica que contra eles é exercida operam através de processos complexos e nem sempre visíveis.
Em geral nós vemos o idoso como uma pessoa diminuída nas suas capacidades de reação e adaptação ao meio e às agressões da vida, que são muitas.
O processo natural do envelhecimento também favorece a marginalização, mas é importante reconhecer que não foi sempre assim. Antes os idosos eram vistos como fonte de sabedoria e hoje, como fardo emocional.
Precisamos dar maior atenção às condições e aos contextos em que se gere violência contra os idosos e assumir sua defesa, pensando sempre na vida que um dia teremos e nas condições que encontraremos.